Este ensaio é uma tentativa honesta e equilibrada, sem paixão, de analisar os últimos 70 anos de governo em Alagoas. Seu objetivo é oferecer subsídios para que futuros governantes compreendam os erros e acertos do passado e formulem políticas públicas capazes de transformar crescimento econômico em desenvolvimento humano de forma duradoura.
A trajetória política de Alagoas, do pós-1964 até os anos recentes, revela uma contradição persistente: períodos de expansão econômica sem a consequente melhoria da vida da maioria. O Produto Interno Bruto (PIB) estadual, quando cresceu, muitas vezes se concentrou em setores restritos — como a cana-de-açúcar, o turismo ou obras urbanas —, enquanto indicadores sociais como analfabetismo, mortalidade infantil, pobreza extrema e violência permaneceram entre os piores do país. Apenas a partir do governo Guilherme Palmeira e, sobretudo, em fases mais recentes, percebe-se uma tentativa mais clara de associar crescimento econômico e inclusão social.
Lamenha Filho (1966–1971) – Obras urbanas e modernização inicial.
Seu governo coincidiu com o início do regime militar e foi marcado por grandes obras em Maceió: a construção do Estádio Rei Pelé, a criação da Escola de Ciências Médicas, a implantação da primeira adutora do Agreste para Arapiraca e a expansão de avenidas e saneamento básico.
O PIB estadual acompanhou o crescimento nacional, mas seguiu dependente da monocultura da cana-de-açúcar e de repasses federais.
Nos indicadores sociais, pouco mudou:
•O analfabetismo ultrapassava 60% da população adulta.
•A mortalidade infantil permanecia altíssima (mais de 120 por mil).
•A pobreza extrema ainda atingia quase metade da população.
Houve modernização urbana, mas o interior seguiu preso a estruturas arcaicas.
Afrânio Lages (1971–1975) – Equilíbrio fiscal e crescimento sem distribuição.
Durante o “milagre econômico brasileiro”, Afrânio Lages governou com forte alinhamento ao regime militar. O PIB estadual cresceu acima da média nordestina, sustentado pelo setor sucroalcooleiro, pela urbanização da capital e por uma gestão fiscal rigorosa.
Entretanto, os ganhos não alcançaram a população rural:
•O analfabetismo seguia acima de 50%.
•A pobreza permanecia estrutural.
•A mortalidade infantil continuava elevada.
O crescimento beneficiou principalmente elites urbanas mantendo a exclusão social.
Divaldo Suruagy (1975–1978) – Primeiro mandato: obras sem inclusão.
Suruagy sucedeu Afrânio Lages e reforçou os investimentos em infraestrutura, educação básica e abastecimento de água. O PIB estadual cresceu moderadamente, ainda apoiado no setor público e na cana.
Nos indicadores sociais, os avanços foram limitados:
•A pobreza extrema ainda superava 40%.
•O analfabetismo pouco recuou.
•A mortalidade infantil seguiu crítica.
Foi um governo de obras, mas sem políticas capazes de reduzir desigualdades históricas.
Guilherme Palmeira (1979–1982) – Modernização administrativa e urbana.
Ao suceder Suruagy, buscou modernizar a administração pública e atrair investimentos privados, especialmente com a implantação do Polo Químico. Conduziu grandes obras em Maceió: ampliou a área urbana da capital ao implantar a Via Expressa de acesso ao Porto, construir a rodoviária João Paulo II e consolidar o Benedito Bentes com um amplo programa habitacional.
O PIB apresentou desempenho razoável, com expansão industrial e de serviços. Politicamente, ampliou a tolerância e trouxe intelectuais de esquerda para os quadros do Estado.
Nos indicadores sociais, entretanto, pouco avançou. O analfabetismo persistiu e a pobreza rural permaneceu alta.
Divaldo Suruagy (1983–1986) – Retorno em meio à crise.
Na redemocratização, Suruagy voltou ao poder em um contexto nacional de inflação alta e dívida externa. O PIB estadual cresceu pouco. Ele investiu em saneamento e abastecimento — emissário submarino de Maceió, Sistema Pratagy, adutora do Agreste e sistemas em municípios do interior — que fortaleceram o turismo.
Apesar disso, os resultados sociais foram modestos:
•A pobreza extrema permaneceu acima de 40%.
•O analfabetismo resistia como barreira estrutural.
•A mortalidade infantil continuava entre as maiores do país.
Geraldo Bulhões (1991–1994) – Estagnação e colapso fiscal.
Seu governo foi marcado por fragilidade fiscal e parcerias mal formadas com o Legislativo. O PIB estadual estagnou em meio à hiperinflação nacional. Salários foram atrasados, dívidas se acumularam e serviços públicos paralisaram.
Socialmente, houve retrocesso: aumento da pobreza, mortalidade infantil persistente e crescimento da violência urbana. Apesar de ter imérito de conceber o Canal do Sertão, seu período é lembrado como um dos mais obscuros da história recente de Alagoas.
Ronaldo Lessa (1999–2006) – Turismo e inserção social.
Ronaldo Lessa promoveu um ciclo de crescimento impulsionado pelo turismo e serviços, mas seu maior legado foi a sinergia com políticas sociais federais (Bolsa Escola, Fome Zero, Bolsa Família).
Resultados:
•A pobreza extrema caiu de cerca de 40% (1990s) para menos de 30% em 2006.
•A mortalidade infantil recuou significativamente.
•O analfabetismo começou a ceder.
Foi a primeira vez que se observou uma correlação clara entre crescimento econômico e avanços sociais.
Teotonio Vilela Filho (2007–2014) – Crescimento e insegurança.
Téo Vilela governou em tempos de estabilidade macroeconômica. O PIB estadual cresceu acima de 3% ao ano, com forte apoio do PAC e obras de infraestrutura, como rodovias e o Canal do Sertão.
Nos indicadores sociais:
•A pobreza extrema caiu para cerca de 20%.
•A educação melhorou com o Fundeb e maior acesso escolar.
Mas o avanço, em parte, foi ofuscado pela explosão da violência: Alagoas chegou a liderar os índices de homicídios no Brasil.
Renan Filho (2015–2022) – Equilíbrio entre economia e social.
Renan Filho liderou um período mais equilibrado. Apesar da crise nacional de 2015–2016, seu primeiro mandato beneficiou-se – mérito político do seu pai senador, Renan Calheiros – da crise fiscal do Rio que obrigou o governo federal a fazer uma rolagem da dívida dos Estados e lhe permitiram ter um caixa folgado para investir. Nisto ele foi prudente e realizou ótimos investimentos para a atividade econômica e social do seu governo. o PIB estadual se sustentou com obras, turismo e serviços.
Nos indicadores sociais:
•A pobreza extrema caiu a cerca de 15%.
•O IDEB destacou Alagoas nos anos iniciais do ensino fundamental.
•A taxa de homicídios caiu quase pela metade, fruto de políticas integradas de segurança.
Foi o ciclo mais completo de combinação entre crescimento e inclusão social.
Quadro comparativo – PIB x Indicadores sociais.
Governador – Período – PIB Estadual – Indicadores sociais – Síntese
Lamenha Filho 1966–1971 Leve crescimento;
obras urbanas;
Pobreza extrema alta; analfabetismo >60%; mortalidade infantil muito elevada;
Modernização urbana sem impacto social.
Afrânio Lages 1971–1975 Crescimento forte (milagre econômico);
equilíbrio fiscal;
Pobreza rural inalterada; mortalidade infantil alta;
PIB cresceu, miséria permaneceu;
Suruagy I 1975–1978 Crescimento moderado;
obras públicas;
Pobreza >40%;
analfabetismo persistente; Obras sem inclusão;
Guilherme Palmeira 1979–1982 Expansão industrial (Polo Químico) e urbana;
Pouca redução da pobreza; analfabetismo alto; mModernização com baixa inclusão;
Suruagy II 1983–1986 Crescimento tímido;
Pobreza >40%;
mortalidade infantil alta;
Avanços sociais limitados;
G. Bulhões1991–1994
Estagnação, crise fiscal;
Pobreza aumentou; ml
serviços colapsados;
Retrocesso social e econômico;
R. Lessa1999–2006
Turismo e serviços em alta; Pobreza reduziu;
mortalidade infantil caiu;
Primeira combinação PIB + social
T. Vilela 2007–2014 Crescimento médio de 3% a.a. Queda da pobreza;
melhora educacional;
violência em alta ;
Avanços com insegurança;
R. Filho 2015–2022 Sustentação com obras e turismo;
Pobreza e violência reduziram; IDEB em alta;
Período mais equilibrado ( PIB + social );
Conclusão.
A história política de Alagoas mostra que crescimento econômico, isolado, não significa desenvolvimento social. Lamenha Filho e Afrânio Lages expandiram o PIB e executaram obras, mas não reduziram a miséria. Suruagy, em seus dois primeiros mandatos, manteve o padrão de crescimento sem inclusão. Guilherme Palmeira modernizou a indústria e a capital, mas sem grandes avanços sociais. Geraldo Bulhões mergulhou o Estado em retrocesso.
A partir de Ronaldo Lessa, já sob maior pressão da sociedade e com apoio de políticas federais, o PIB começou a dialogar com inclusão social. Teotonio Vilela consolidou avanços, mas conviveu com a escalada da violência. Renan Filho, por fim, ofereceu o quadro mais equilibrado, combinando crescimento econômico, redução da pobreza, melhoria educacional e queda da violência.
O desafio que se impõe é transformar esses avanços pontuais em um modelo estrutural e duradouro, capaz de romper a dependência histórica de ciclos externos e de políticas federais, e finalmente consolidar em Alagoas um desenvolvimento humano sustentável.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
“as opiniões emitidas por nossos colaboradores, não refletem, necessariamente, a opinião do site”