Sem Gonet, Moraes não poderia condenar.
A política brasileira tem seu realismo próprio: o que parece coerência dura segundos, e o que soa contraditório, na verdade, é apenas a face pública de acordos silenciosos. A recondução de Paulo Gonet para mais dois anos à frente da Procuradoria-Geral da República revela esse fenômeno com clareza quase didática.
Gonet foi, para vastas fileiras bolsonaristas, o procurador que permitiu que Alexandre de Moraes avançasse com suas decisões — porque, sem a anuência do PGR, Moraes não poderia levar adiante condenações sensíveis ao ex-presidente. Para os fiéis do bolsonarismo, Gonet se tornou símbolo de perseguição, um “carrasco institucional”.
E, no entanto, quem garantiu sua permanência foram exatamente os conservadores do Senado, muitos deles aliados históricos de Bolsonaro. O que para a base soa como traição, para o Senado é apenas cálculo: política, não devoção.
O Carrasco reabilitado pela conveniência.
A recondução de Gonet não decorre de simpatia ideológica. Ele não é visto pela direita como aliado, tampouco pela esquerda como adversário. É considerado previsível, técnico, controlável — e isso, no ambiente institucional brasileiro, vale mais que afinidades.
A direita ideológica, aquela que ainda vive o “luto político” pela derrocada de Bolsonaro, viu em Gonet uma figura incômoda. Mas a direita pragmática, que domina o Senado, viu nele um ativo valioso:
•não é aventureiro,
•não cria crises,
•não desafia o Senado,
•mantém o STF em terreno estável.
É por isso que o carrasco se transforma, de repente, no garantidor da ordem institucional que o Senado prefere: um PGR previsível e “gerenciável”.
O fim do luto pelo ex-presidente.
Para parte do Senado conservador, ficou claro que o julgamento político do bolsonarismo já acabou. O “luto” silencioso — aquele estágio em que os parlamentares ainda votavam movidos pelo receio da militância — perdeu força. O pragmatismo venceu o ressentimento.
Se o bolsonarismo mais radical queria ver Gonet rejeitado, o Senado avaliou que não vale a pena travar uma guerra institucional apenas para satisfazer paixões. A reconstrução de alianças para 2026 exige flexibilidade, não vendetas.
Assim, a recondução marca simbolicamente o fim do luto por Bolsonaro. Muitos conservadores entenderam que não há mais espaço para brigar com o STF ou com a PGR por causas pessoais do ex-presidente. A política girou a página antes da militância.
Sem Gonet, não haveria condenações — e isso também pesou.
Há, ainda, um elemento jurídico crucial — e pouco dito para o público:
sem manifestação da PGR, o ministro Alexandre de Moraes não poderia avançar com condenações e ações sensíveis contra Bolsonaro e seus aliados.
Ao reconduzir Gonet, o Senado envia um recado claro:
•aceita a institucionalidade das investigações;
•não pretende reabrir guerras com o STF;
•reconhece que manter estabilidade jurídica é mais importante que ajustar contas do passado.
Dói para a militância, mas agrada às elites políticas que querem previsibilidade — inclusive para evitar riscos maiores ao próprio sistema.
A explicação é complexa — o entendimento é simples.
Difícil é explicar aos fiéis de Bolsonaro por que seus senadores mantiveram o procurador visto como rival.
Fácil é entender o que aconteceu:
•houve acordos,
•houve intérêts,
•houve medo de instabilidade,
•e houve cálculo para 2026.
A política não se rende à emoção quando o poder está em jogo. E o poder, nesse momento, exige paz institucional ― não revanche.
Conclusão: um capítulo encerrado.
A recondução de Paulo Gonet sela duas mensagens:
1.O Senado conservador abandonou o luto por Bolsonaro.
Já não vota para agradar a militância, e sim para preservar seu próprio futuro.
2.O carrasco institucional foi incorporado à ordem política.
Não porque mudou, mas porque o sistema precisa dele exatamente como é.
No fim, Gonet permaneceu porque a política assim quis — e porque, sem ele, a engrenagem jurídica que condenou Bolsonaro não poderia continuar girando.
A política fecha seus ciclos de forma silenciosa, mas inequívoca. O luto acabou. A página virou.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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