Há momentos em que a tecnologia avança, a sociedade muda e o Estado deveria, por obrigação moral e fiscal, acompanhar. Quando isso não ocorre, não estamos diante de atraso inocente, mas de decisão política consciente. O caso dos Correios no Brasil é exemplar: uma instituição moldada para um mundo que não existe mais, mantida de pé por razões que nada têm a ver com serviço público.
Durante séculos, a carta foi o eixo da comunicação estatal. Para que uma única mensagem atravessasse um país continental, era necessário um exército civil: gente para receber, registrar, classificar, transportar e entregar. O telegrama, símbolo da urgência moderna do século XIX, criou outra cadeia paralela — operadores, retransmissores, mensageiros. O Brasil dimensionou sua estrutura postal para esse mundo. E fez sentido.
O problema começa quando o mundo acaba — e a estrutura permanece.
1. A causa estrutural: o objeto do trabalho desapareceu.
A carta funcional morreu. Não por ideologia, mas por eficiência. O e-mail, os sistemas digitais, as plataformas de mensagens instantâneas eliminaram a necessidade material da correspondência cotidiana. O telegrama morreu oficialmente em 2022, mas estava morto economicamente há décadas. A encomenda, último bastião, foi superada em velocidade, rastreabilidade e custo pelo setor privado.
Em qualquer organização racional, a consequência seria óbvia: redimensionar. Não extinguir pessoas, mas encerrar funções obsoletas, requalificar, fechar unidades inviáveis, redefinir missão. Isso é gestão.
No Estado brasileiro, isso é tabu.
2. A irresponsabilidade administrativa: manter gente sem missão.
Manter uma estrutura cujo objeto desapareceu não é neutralidade; é irresponsabilidade fiscal e administrativa. Não se trata de proteger o trabalhador pobre — trata-se de sustentar um aparato caro, estável e sem contrapartida proporcional.
Salários médios elevados para a realidade nacional, estabilidade, planos de saúde, auxílios diversos, agências vazias e rotinas simuladas. O custo anual — na casa de dezenas de bilhões de reais — não compra eficiência, inovação ou universalização do serviço. Compra inércia.
Gestão pública exige alinhar meios a fins. Quando os fins morrem e os meios continuam intactos, o nome disso não é política social: é negação da gestão.
3. O papel dos sindicatos: de representação a correia política.
É aqui que o problema deixa de ser técnico e passa a ser moral e político.
Sindicatos nasceram para proteger trabalhadores em ambientes de exploração real. Mas quando passam a defender a permanência de funções mortas, tornam-se algo diferente: instrumentos de preservação de privilégios. Pior: instrumentos de pressão política organizada.
A lógica é simples:
•uma massa funcional estável,
•sindicalizada,
•concentrada,
•sensível a narrativas de “ameaça”,
•capaz de parar serviços e constranger governos.
Para um governante sem compromisso com eficiência, essa massa é um ativo eleitoral. Mantém-se a estrutura não porque ela sirva à sociedade, mas porque serve ao cálculo político. A folha vira curral. O orçamento vira moeda. A retórica da “defesa do trabalhador” encobre a defesa do voto.
Não é coincidência que qualquer tentativa de racionalização seja imediatamente rotulada como “ataque”, “privatização selvagem” ou “retirada de direitos”. O debate técnico é sufocado pelo medo organizado.
4. Compra de votos com dinheiro público: o incentivo perverso.
Aqui é preciso abandonar a delicadeza. Quando um governo opta por manter um aparato comprovadamente obsoleto, sabendo do custo e da ausência de retorno social, isso não é erro — é opção.
E toda opção tem um beneficiário.
O contribuinte é difuso, silencioso, desorganizado. Não protesta por centavos diluídos no orçamento. Já o funcionário organizado vota, pressiona, faz greve, ocupa manchetes. Politicamente, é mais barato manter o erro do que corrigi-lo.
Assim se jogam R$ 20 bilhões por ano — não na fossa por acaso, mas na urna por cálculo.
Isso não é Estado social. É clientelismo de alta renda, financiado por quem produz e pago a quem não tem mais o que produzir naquele modelo.
5. O silêncio conveniente e o medo da decisão.
O Brasil não é incapaz de reformar. É amedrontado. Falta coragem administrativa para dizer o óbvio: funções morrem, estruturas precisam mudar, e proteger pessoas não é o mesmo que preservar cargos inúteis.
Uma transição responsável teria ocorrido há 20 anos:
•requalificação real,
•redução gradual,
•fechamento negociado de agências,
•separação entre política social e empresa operacional,
•indenizações, aposentadorias e mobilidade.
Nada disso exige crueldade. Exige liderança. Exige enfrentar sindicatos quando eles deixam de representar o interesse público.
6. Conclusão: quando o Estado serve a si mesmo.
O caso dos Correios não é exceção; é sintoma. Um Estado que mantém estruturas sem função não governa — se autopreserva. E quando a autopreservação se torna prioridade, o orçamento deixa de ser instrumento de política pública e vira ferramenta eleitoral.
A ruptura necessária não é contra trabalhadores. É contra a mentira confortável de que manter o inútil é virtude. Não é. É fraude moral contra quem paga a conta.
Quando a função morre e o custo vira voto, o Estado já cruzou a linha. E toda sociedade que tolera isso paga — em impostos, em atraso e em cinismo institucional.
RUI GUERRA
Analista colaborador do Resumo Política
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