O bloqueio hoje, 21/01, do acordo entre União Europeia e Mercosul, levado pelo Parlamento Europeu ao campo judicial, expõe mais do que uma disputa comercial. Ele revela o estado atual de uma Europa que já não decide com agilidade, não assume riscos estratégicos e não projeta futuro fora de seus próprios muros regulatórios. O episódio confirma uma mudança silenciosa na ordem internacional. A Europa deixou de ser centro dinâmico de poder e passou a ser um espaço defensivo, autocontido, preocupado em preservar privilégios centenários enquanto perde capacidade de liderança externa.
Durante décadas, o Brasil construiu uma relação simbólica com a Europa que ultrapassava comércio e diplomacia. A Europa era vista como referência institucional, cultural e moral. Essa imagem hoje se sustenta mais pela memória do que pela prática. O que se observa é uma Europa envelhecida, fragmentada politica e excessivamente dependente de consensos que nunca chegam. A consequência natural é a paralisia decisória.
O acordo UE Mercosul foi negociado ao longo de mais de vinte anos. Poucos processos comerciais no mundo consumiram tanto tempo. Mesmo depois de finalizado tecnicamente, continua sendo bloqueado por disputas internas, pressões corporativas e discursos ambientais seletivos. Não se trata de falhas técnicas no acordo. Trata-se de um sistema político incapaz de aceitar a própria perda de centralidade econômica.
A narrativa ambiental, frequentemente usada como argumento contra o acordo, revela um traço típico da Europa atual. Não é uma defesa universal do meio ambiente. É uma defesa localizada dos seus produtores menos competitivos. A agricultura europeia é fortemente subsidiada e pouco capaz de enfrentar a eficiência do agronegócio sul americano. Ao invés de reconhecer essa realidade e negociar compensações claras, a Europa transforma padrões ambientais em barreiras comerciais invisíveis. Assim, preserva seus privilégios enquanto mantém a aparência de virtude moral.
Outro traço revelado pelo bloqueio do acordo é a multiplicação de instâncias de veto. Comissões, parlamentos, tribunais, partidos, agências e organizações não governamentais disputam poder sem que exista um verdadeiro centro de decisão. O resultado não é mais democracia, mas um tipo sofisticado de imobilismo. Quando não se quer decidir, transfere-se o problema para o Judiciário. Judicializar o acordo é uma forma elegante de enterrá-lo sem assumir o custo político da recusa direta.
Esse padrão de comportamento explica por que a Europa já não funciona como potência estratégica. Potências precisam decidir, assumir riscos, errar e corrigir rapidamente. A Europa prefere retardar, revisar indefinidamente e proteger seus decadentes equilíbrios internos. Com isso, perde relevância externa.
É nesse contexto que a crítica de Trump à Europa ganha substância prática. Trump nunca atacou a Europa por razões culturais ou morais. Seu foco sempre foi econômico e estratégico. Ele denunciou o fato de que a Europa se beneficia da proteção militar americana enquanto fecha seus mercados e impõe exigências normativas que não aplica a si mesma com o mesmo rigor. O impasse com o Mercosul confirma esse diagnóstico. A Europa exige abertura alheia, mas protege seus setores sensíveis. Exige padrões elevados, mas preserva subsídios que distorcem a concorrência. Age como parceira quando convém, mas como fortaleza quando ameaçada.
Isso não significa que Trump esteja certo em tudo que faz. Mas significa que ele identificou corretamente uma disfunção estrutural do modelo europeu contemporâneo. A Europa
tornou-se um espaço regulatório de consumo, não mais um motor de produção estratégica global.
O Brasil precisa interpretar esse cenário com frieza e maturidade. Durante muito tempo, projetamos na Europa expectativas que ela já não pode satisfazer. Esperamos investimentos estruturantes, abertura real de mercados e alianças de longo prazo. Recebemos exigências normativas, lentidão decisória e insegurança jurídica. O custo desse equívoco é alto. Ele se traduz em atraso comercial, perda de oportunidades e desperdício de capital diplomático.
Persistir na ilusão de que a Europa pretende algo relevante com o futuro do Brasil é um erro estratégico. A Europa busca preservar a si mesma. Não liderar novos ciclos de desenvolvimento fora de suas fronteiras. O Brasil, por sua vez, precisa pensar em desenvolver seu fartos ativos preservados e evoluídos como energia, alimentos, minerais estratégicos e cadeias industriais. Precisa de parceiros que decidam, que assumam riscos e que tenham interesse real em expansão econômica.
Isso não implica romper com a Europa. Implica reposicioná la. A Europa deve ser vista como parceiro complementar, não prioritário. Um mercado importante para nichos específicos, tecnologia de ponta em setores selecionados e capital financeiro pontual. Não mais como eixo estruturante da política externa brasileira.
O eixo deve deslocar se para regiões e países onde ainda existe velocidade decisória e pragmatismo comercial. Estados Unidos, mesmo continuam sendo um centro de inovação e decisão rápida. Sudeste Asiático – China, Japão, Coreia do Sul e Índia apresentam crescimento e apetite por recursos. Oriente Médio produtivo – Arábia Saudita, Emirados Árabes, Israel, Egito, não apenas consumidores, buscam diversificar investimentos. Essas regiões operam com lógica menos moralizante e mais estratégica.
Há também uma dimensão psicológica nesse ajuste. O Brasil ainda busca reconhecimento simbólico na Europa. Quer pertencer culturalmente a um espaço que já não organiza o mundo. Essa busca por pertencimento bloqueia a afirmação de uma identidade própria como potência média com vocação produtiva global. O Brasil não precisa ser aceito pela Europa. Precisa ser respeitado como produtor de valor real.
O episódio do acordo UE Mercosul é didático. Ele mostra que o problema não é o Brasil, nem o Mercosul. O problema é um modelo europeu que perdeu capacidade de agir externamente sem comprometer seus equilíbrios internos. Um modelo que protege privilégios enquanto fala em universalismo. Um modelo que transfere suas dificuldades estruturais para exigências morais dirigidas aos outros.
A grande questão para o Brasil não é reagir com ressentimento, mas com realismo. Realismo não é submissão a Trump nem adesão automática a qualquer outro polo de poder. Realismo é reconhecer onde há futuro e onde há apenas preservação do passado.
A Europa continuará sendo relevante cultural, cientificamente e em setores específicos. Mas já não é o espaço onde o futuro econômico do Brasil será decidido. O futuro brasileiro dependerá de sua capacidade de produzir, transformar, exportar e liderar cadeias estratégicas. E isso exige parceiros dispostos a caminhar, não apenas a regular.
O bloqueio europeu ao acordo não é um acidente. É um sinal claro. Ignorá-lo seria insistir em uma narrativa confortável, mas improdutiva. O Brasil precisa olhar para frente, não para o espelho europeu que reflete mais o que foi do que o que será.
Analista colaborador do Resumo Política







