As eleições presidenciais de 2026 não serão decididas apenas por desempenho econômico, alianças partidárias ou carisma pessoal. Um fator menos visível, mas cada vez mais determinante, atravessa o ambiente político brasileiro. A confiança no árbitro. Ou, mais precisamente, a desconfiança crescente sobre o modo como decisões judiciais de alto impacto político vêm sendo conduzidas e comunicadas à sociedade.
O Brasil entrou numa fase em que o Judiciário deixou de ser percebido apenas como instância técnica de contenção e passou a ocupar o centro do palco. Isso não ocorreu de forma abrupta nem por um único episódio. Foi resultado de uma sequência de decisões, declarações públicas, protagonismos individuais e narrativas morais que, somadas, produziram um efeito colateral. Uma parcela relevante da população passou a enxergar o julgamento de líderes políticos não apenas como aplicação da lei, mas como parte de uma disputa de poder entre elites.
Essa percepção não é homogênea. O país parece dividido em três grandes blocos eleitorais. Um terço permanece fiel ao lulismo, interpretando o Judiciário como guardião da democracia e instrumento legítimo de contenção de ameaças autoritárias. Outro terço se mantém alinhado ao bolsonarismo, desconfiando profundamente das instituições e interpretando qualquer ação judicial como perseguição política. O terço restante, porém, é o mais relevante para 2026. Trata-se do eleitor incrédulo. Não idolatra líderes, não confia plenamente na imprensa e observa o sistema com ceticismo silencioso.
É nesse grupo que os tropeços do Judiciário produzem maior impacto. Não porque esse eleitor absolva automaticamente figuras investigadas ou condenadas, mas porque reage mal à politização do processo. Quando ministros se tornam personagens recorrentes do noticiário, quando decisões monocráticas com efeitos amplos se acumulam, quando privilégios corporativos são defendidos publicamente em nome da normalidade, a sensação de assimetria cresce. O julgamento passa a ser visto menos como ato impessoal e mais como expressão de força institucional.
Esse deslocamento de percepção afeta diretamente as perspectivas eleitorais de Lula. Não por fragilidade pessoal imediata, mas pela associação simbólica entre seu governo e o sistema institucional que o cerca. Em 2022, Lula venceu porque conseguiu reunir duas forças simultâneas. A rejeição a Bolsonaro e a crença de que o retorno do petismo representaria normalização democrática. Parte dessa crença estava ancorada na confiança de que as instituições funcionavam como árbitros neutros.
Quando essa neutralidade passa a ser questionada, mesmo que de forma difusa, o capital simbólico do lulismo se desgasta. O eleitor cético não migra automaticamente para a direita. Ele apenas se afasta. E afastamento, em eleições apertadas, tem peso equivalente à mudança de voto.
Nas quatro grandes regiões fora do Nordeste, o cenário já é relativamente claro. Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte deram maioria à direita em 2022 e não apresentam sinais consistentes de inflexão pró Lula. Governadores conservadores bem avaliados, políticas regionais alinhadas a agendas de eficiência administrativa e discurso menos ideológico tendem a consolidar esse bloco. Nessas regiões, a disputa de 2026 parece mais sobre manutenção de vantagem do que sobre virada.
O Nordeste, portanto, volta a ser o campo decisivo. Em 2022, foi a região que garantiu a vitória de Lula com margem expressiva. Mas o Nordeste não é um território ideológico rígido. É uma região de voto pragmático, sensível à renda, à presença do Estado, à percepção de justiça e à credibilidade das instituições. O eleitor nordestino historicamente distingue escândalos abstratos de injustiças concretas. Tolera o primeiro. Reage ao segundo.
É nesse ponto que os tropeços do Judiciário podem produzir efeitos inesperados. Quando decisões parecem seletivas, quando a retórica moral não se traduz em simetria de tratamento, quando privilégios institucionais ficam evidentes, o discurso de proteção dos fracos perde força. O eleitor não precisa concluir que um líder foi inocente. Basta sentir que o processo foi desigual.
Se essa percepção ganhar corpo, o impacto eleitoral não virá na forma de uma virada brusca, mas de uma erosão gradual. Lula não precisa perder o Nordeste para perder a eleição. Basta reduzir significativamente sua vantagem. Uma queda de poucos pontos percentuais na região pode ser suficiente para alterar o resultado nacional, dado o equilíbrio nas demais regiões.
Outro elemento relevante é o tempo. A politização do Judiciário tende a produzir efeitos cumulativos, não explosivos. Cada episódio isolado parece pequeno. Mas, ao longo do tempo, constrói-se uma narrativa alternativa. Não a de um golpe inexistente ou de uma conspiração absoluta, mas a de um sistema que perdeu a mão. Para o eleitor incrédulo, isso é suficiente para retirar o entusiasmo e reforçar o distanciamento.
Lula, nesse contexto, enfrenta um desafio diferente daquele de 2022. Não basta governar razoavelmente bem ou manter políticas sociais. Será necessário preservar a percepção de que o sistema institucional que sustenta seu governo ainda merece confiança. Isso não depende apenas dele. Depende do comportamento do Judiciário, da capacidade de autolimitação e da disposição em aceitar escrutínio público sem reagir como poder ofendido.
A eleição de 2026 tende a ser menos sobre programas de governo e mais sobre legitimidade. Menos sobre promessas e mais sobre quem parece abusar menos do poder. Se o Judiciário continuar a expandir sua atuação sem contenção simbólica, pode acabar ajudando a direita de forma involuntária, ao alimentar a desconfiança do eleitor que decide eleições.
O Nordeste será o termômetro dessa dinâmica. Se a região mantiver a confiança no sistema, Lula entra forte. Se começar a expressar cansaço, desconfiança ou simples afastamento emocional, o cenário muda rapidamente. Não haverá ruptura. Haverá deslocamento silencioso.
Em 2026, a disputa não será entre salvadores da pátria. Será entre narrativas de legitimidade. E, nesse terreno, a desconfiança é uma força eleitoral poderosa. Quando o árbitro passa a ser questionado, o jogo inteiro muda de natureza. Lula ainda tem vantagem. Mas ela não é estrutural. É condicional. E depende, cada vez mais, de fatores que escapam ao controle direto do governo e repousam no comportamento de instituições que, se não se contiverem, podem decidir a eleição sem jamais disputar um voto.
Analista colaborador do Resumo Política







