O resultado da eleição chilena não deveria causar espanto nem ser interpretada como uma guinada ideológica profunda. Trata-se, antes de tudo, do funcionamento normal da democracia quando ela ainda é reconhecida como o melhor mecanismo disponível para corrigir rumos. O eleitor não muda de campo político porque se converteu a uma nova fé doutrinária, mas porque abandona promessas não cumpridas em busca de expectativas ainda não testadas. Esse movimento pendular é menos um juízo moral sobre direita ou esquerda e mais uma reação racional à frustração acumulada.
O Chile viveu, nos últimos anos, uma experiência intensa de expectativas infladas. A explosão social de 2019 criou um ambiente em que demandas legítimas — desigualdade, custo de vida, acesso a serviços públicos — foram rapidamente transformadas em promessas estruturais de redenção política. A esquerda soube capturar esse sentimento, convertendo indignação difusa em narrativa eleitoral. O problema surge quando a retórica simbólica encontra a realidade dura das restrições fiscais, institucionais e culturais. Governar exige mais do que denunciar; exige escolher, priorizar e frustrar.
A esquerda chilena chegou ao poder com um discurso fortemente moralizado, sustentado na ideia de que o sistema vigente era intrinsecamente injusto e que bastaria substituí-lo por um novo pacto social para que os resultados aparecessem. Essa promessa, embora sedutora, esbarrou em um dado incontornável: nenhuma sociedade complexa se transforma por decreto, muito menos sem custos, conflitos e perdas no curto prazo. Quando esses custos surgem, o eleitor passa a comparar o prometido com o entregue — e a frustração se instala.
É nesse ponto que a democracia revela sua natureza essencial: ela não é um sistema de realização de utopias, mas um mecanismo institucional de gestão da decepção. O voto funciona como instrumento de correção, não como selo de fidelidade eterna. Ao perceber que o campo político vencedor não foi capaz de traduzir promessas em resultados concretos, o eleitor faz aquilo que a democracia lhe permite fazer sem violência: troca o operador do poder.
A vitória da direita no Chile não significa que o eleitor abandonou valores sociais ou aderiu subitamente a uma agenda liberal pura. Significa apenas que a esquerda consumiu seu capital de confiança sem entregar aquilo que prometeu no ritmo e na forma esperados. A direita, nesse contexto, não é escolhida como solução definitiva, mas como alternativa provisória. Ela herda o governo carregando expectativas que não construiu sozinha — e que dificilmente conseguirá cumprir integralmente.
Esse ciclo revela um traço estrutural das democracias modernas: nenhum campo político é capaz de atender simultaneamente às múltiplas e contraditórias expectativas de uma sociedade plural. Parte da população deseja crescimento rápido e previsibilidade econômica; outra parte exige redistribuição, proteção social e correção de desigualdades históricas. Uns valorizam eficiência e mérito; outros, segurança e amparo. Essas demandas não apenas entram em choque entre si como variam ao longo do tempo, conforme idade, renda, contexto econômico e percepção de risco.
Quando a esquerda governa, tende a frustrar aqueles que esperam retorno imediato do esforço individual, estabilidade macroeconômica e previsibilidade regulatória. Quando a direita governa, decepciona os que dependem mais diretamente do Estado e esperam políticas compensatórias mais abrangentes. A alternância, portanto, não é sinal de instabilidade institucional, mas resposta racional à incompletude de qualquer projeto político.
O Chile, diferentemente de países que caminharam para a polarização crônica ou para o personalismo autoritário, ainda preserva a confiança básica no processo democrático. O eleitor não está rejeitando o regime; está usando o regime. Enquanto essa confiança existir, a alternância continuará sendo o caminho preferencial. O perigo real não está na troca de governos, mas no momento em que a sociedade passa a acreditar que nenhuma alternância é capaz de produzir melhora, abrindo espaço para soluções fora do jogo institucional.
Outro elemento central desse processo é a ilusão recorrente de que existe um governo “certo”, capaz de resolver definitivamente as tensões sociais. Essa expectativa, comum em momentos de crise, produz ciclos de euforia seguidos de desencanto. A democracia, porém, não oferece redenção; oferece ajustes sucessivos, sempre imperfeitos. Cada eleição substitui um conjunto de promessas fracassadas por um novo conjunto de expectativas desejadas — que, cedo ou tarde, também se mostrarão incompletas.
Nesse sentido, não há surpresa no Chile. Há apenas a repetição de uma lógica conhecida: governos são eleitos para corrigir excessos do anterior, não para inaugurar uma era de harmonia permanente. A direita que agora vence será cobrada com o mesmo rigor que a esquerda foi. Se não entregar resultados percebidos como suficientes, será descartada na próxima rodada. Esse é o preço — e a virtude — da democracia.
O caso chileno ensina que a alternância é o antídoto contra o dogmatismo. Nenhum campo político pode se considerar dono do futuro, nem intérprete exclusivo da vontade popular. O eleitor muda não porque seja volátil ou irracional, mas porque aprende, testa e reage. A democracia sobrevive exatamente porque admite o erro e permite sua correção sem ruptura.
Em última instância, o que o Chile mostra é que a política democrática é um mercado imperfeito de expectativas. Promessas são ofertadas, governos são testados, resultados são avaliados. Quando a distância entre discurso e realidade se torna grande demais, o eleitor troca de fornecedor. Não por ingenuidade, mas por prudência.
Assim, a vitória da direita no Chile não representa um fim de ciclo ideológico, mas a continuidade do único ciclo que importa nas democracias vivas: a substituição periódica de promessas não cumpridas por expectativas ainda desejadas. Enquanto esse mecanismo estiver de pé, a democracia seguirá sendo, apesar de todas as suas falhas, o melhor instrumento conhecido para administrar sociedades plurais, frustradas e inevitavelmente.
Analista colaborador do Resumo Política







