Ele chegava alegre com dois ou três pacotes, colocava-os na mesa e abria mostrando aos cinco filhos os fogos comprados para o São João. Arrodeando a mesa da sala da imensa varanda de minha casa, contemplávamos cheios de alegria aquele presente de meu pai. O Major Mário Lima sentia prazer, satisfação em distribuir os fogos aos filhos. Aos menores cabiam: traques, chuvinhas e estalos bebé. Aos maiores eram distribuídos: foguetes de três tiros, foguetes de estrelas, bombas travalianas, peidos de veia, e o melhor, os vulcões. Na véspera de São João, perto de escurecer dava-se o momento mágico: acender a fogueira bem arrumada na rua em frente à minha casa. Lançava álcool por cima dos troncos, acendia o fogo com um fósforo. O fogaréu começava chispando faísca, iluminava a rua. Os adultos sentados nas cadeiras na calçada, conversavam, tomando doses de quentão, uísque ou cerveja e olhavam a meninada correr e soltar seus fogos. Os vizinhos seguiam o mesmo ritual. A rua engalanava-se em fogueiras e bandeirinhas, havia um rodízio de visitas enquanto a eletrola tocava: A fogueira tá queimando… Em homenagem a São João… O forró já começou… Vamos, gente, rapa pé nesse salão…
Quando dava meia-noite, as mocinhas entravam para fazer “adivinhações”. Em uma bacia cheia d’água deixavam pingar cera de uma vela acesa até formar ou aparentar com os pingos uma letra. Pronto, era com um jovem de nome iniciado com aquela letra que a moça iria casar. Ou levavam para o fundo do quintal uma faca que enfiava no tronco de uma bananeira, no dia seguinte puxava a faca manchada com a primeira letra do seu futuro marido. Eu, menino acompanhava com fascínio toda aquela movimentação da véspera de São João, ouvindo o som da eletrola rodando as músicas de Luiz Gonzaga. Quando a fogueira baixava, convidava um amigo do peito para pular por cima das brasas, um de cada lado, seríamos “compadres” para o resto da vida. Um dos momentos mais esperados era a queima de três ou quatro vulcões enormes, um esplendor de explosão jorrando forte para o alto enormes faíscas coloridas.
Durante a adolescência, a expectativa do São João iniciava um mês antes, com os ensaios da Quadrilha no Iate Clube Pajussara. Vários pares de jovens dançavam e rebolavam ao som de uma animada música junina e sob o comandando do quadrilheiro que cantava a sequência dos passos da dança em francês: “Em avant tout”, “change de dame”, “balancê”, “returnê”, “tur”, e lá íamos nós, os jovens casais, felizes da vida. Ensaiávamos bastante até a noite da grande apresentação. Durante os repetitivos ensaios, a paquera era maravilhosa. Iniciavam namoros entre os componentes da quadrilha. Afinal a noite de glória, a apresentação da Quadrilha do Iate. Todos fantasiados de matutos, com as calças e camisas remendadas, bigodes e costeletas de carvão, chapéu de palha, dançávamos como se fosse para a maior plateia do mundo. Enchíamos de orgulho e felicidade quando os aplausos ensurdeciam no enorme salão.
No CRB havia a famosíssima Festa dos Pedros, organizada na véspera de São Pedro, dia 28 de junho. As mesas rapidamente vendidas, quem tinha o nome Pedro, a mesa reservada era cortesia. Um arrasta-pé intermitente animado por quatro trios nordestinos, forró de pé de serra, tocava a noite toda. Ao lado de fora uma enorme fogueira acesa iluminava o Clube e a praia da Pajuçara. Quando terminava a animada festa, nós, jovens moradores da Avenida da Paz, caminhávamos rumo às nossas casas, cantando ainda com energia cheio de hormônios, geralmente de mãos dadas com a namorada da vez. Abraçados, um beijo roubado, cantando pela noite iluminada pelos postes da luz boêmia: “Olha pro céu meu amor… Veja como ele está lindo… Olha para aquele balão multicor… Que lá no céu está sumindo… Foi numa noite igual a esta… Que tu me deste o coração… O céu estava em festa… A música valia um beijo da namorada já segura pelo pescoço. Durante a alegre caminhada, às vezes a chuva acontecia, era sinal de alegria, estimulava nossa energia. Ao chegar perto do coreto da Avenida, o dia amanhecendo, o céu dourado anunciando um novo dia, com chuva ou sem chuva, corríamos para um mergulho no mar alaranjado pelo sol nascente com roupa e tudo que tivesse no corpo. Alegres, cansados, cada qual partia molhado para sua casa. Era a despedida, acabava as festas juninas tão amadas e tão esperadas durante o ano inteiro.





